Quase todo filme que entra no circuito nacional ganha uma tradução para português ou um complemento no nome que geralmente descaracteriza o longa em questão, como por exemplo "Hangover" (Ressaca) que aqui virou "Se Beber Não Case" ou então "My Girl" (Minha Garota) que virou "Meu Primeiro Amor". No entanto com o spin-off de Rocky, "Creed", o complemento "Nascido Para Lutar" até que faz sentido e é isso que é mostrado em um pouco mais de duas horas de filme.
O longa dirigido por Ryan Coogler ("Fruitvale Station") consegue deixar bem claro que Adonis (Michael B. Jordan) não teria outro destino a não ser se tornar um boxeador que nem o seu pai Apollo (Carl Weathers), que ele não chegou a conhecer por ele ter morrido antes que o jovem nascesse, na trágica luta contra Ivan Drago (Dolph Lundgren) mostrada em "Rocky IV" (1985). Desde cedo arrumando briga nos abrigos para menores por onde passou depois que a sua mãe biológica morreu. Isso parece ter mudado quando Mary Anne Creed (Phylicia Rashād) viúva do falecido campeão resolve adota-lo, deixando para trás a traição do ex-campeão.

No entanto quando a história da um salto para os dias atuais isso não acontece e vemos um Adonis já adulto disputando lutas de boxe ilegais no México ao mesmo tempo que tenta uma carreira em um emprego dito normal em uma empresa de ponta em Los Angeles, só que a vontade de se tornar um lutador fala mais alto e mesmo contra a vontade de Mary Anne ele larga o emprego e no desenrolar dos acontecimentos acaba indo parar na Filadélfia, terra do lendário ex-campeão Rocky Balboa (Sylvester Stallone).
Sua aproximação com o eterno garanhão italiano tentando fazer com que ele o treine é um dos pontos altos do filme. Depois da morte da sua amada esposa Adrian (Talia Shire) e do seu inseparável amigo e cunhado rabugento Paulie (Burt Young), Rocky também se viu longe do seu filho que preferiu morar no Canadá para sair da sombra do pai famoso, com quem nunca teve um bom relacionamento (isso é mostrado em Rocky Balboa de 2006). Ele só decide treinar Adonis após conseguir enxergar no garoto a mesma determinação que havia visto em seu pai anos atrás.

Outro destaque do longa é romance de Creed com a sua vizinha Bianca (Tessa Thompson), uma aspirante a cantora que está perdendo aos poucos a audição. Ele vai ganhando a confiança dela aos poucos até que, como em uma luta de boxe, quebra a sua baixa e consegue conquista-la, mesmo depois de omitir para ela que era filho do Apollo.
Esse é o grande dilema de Adonis, que em sua primeira luta profissional ainda usa o sobrenome da sua mãe biológica, Johnson. Mas depois que sua história é revelada para o mundo pelo treinador de seu adversário derrotado ele decide assumir o sobrenome famoso em um duelo contra o atual campeão. Enquanto ele treina para vencer, Rocky luta para viver após descobrir que tem câncer. E esse ponto da história foi muito bem aproveitado com um pacto entre os dois personagens principais, pois Adonis só decide lutar se o seu treinador fizer o mesmo contra a doença.
Menos caricato do que nos últimos filmes, Stallone conseguiu dar o tom certo para Rocky em sua fase mentor, assim como Mickey (Burgess Meredith) havia sido para ele no primeiro filme em 1976. Mesmo encarando a doença ele consegue preparar o seu pupilo para a luta ao mesmo tempo que seu interprete pode ter preparado caminho para seu primeiro Oscar pessoal.
Não vai ser injusto se Stallone conquistar o prêmio de melhor ator coadjuvante. Mesmo estando longe de ser um ator brilhante, teve todos os méritos por conseguir essa indicação. O filme também merecia estar entre os melhores do ano, assim como Ryan Coogler merecia figurar entre os aspirantes a melhor diretor, mas a academia tem dessas coisas.
Trailer:
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